Tenho uma tia que fazia o meu pai de gato e sapato.
O meu pai, um português de "brandos costumes" como tantos outros, pacífico na maior parte do tempo, se deixava levar.
Minha mãe, uma vez casada com o meu pai, cortou esse ciclo. E, então, a minha tia que, se já não morria de amores pela minha mãe, passou a admitir que não gostava dela.
Há oito anos, como era importante para mim retomar o contato com a família do meu pai, convenci a minha mãe para passarmos o réveillon na casa dessa minha tia, que mora na praia.
Eu fui primeiro, no dia 24 de dezembro. A minha mãe chegou depois, no dia 29. Desde o dia em que a minha mãe chegou, a minha tia, maldosa, começou a cutucá-la e a falar coisas que a faziam sofrer. Não satisfeita, preparou uma emboscada para a minha mãe cair. Ela caiu e, assim, no dia 31 de dezembro, as duas começaram a discutir.
A minha prima veio me dizer que eu e o meu irmão éramos bem-vindos na casa deles, mas a minha mãe não o era.
Eu, que herdei o sangue português, mas ainda mais o sangue quente andaluz, respondi que eu não podia ser bem-vindo onde minha mãe não o fosse. Naquele dia, resolvi que nunca mais iria à casa da minha tia.
Por esses dias, resolvi visitar o meu primo, que já não via há seis anos. A minha prima me contou que o meu tio, uma pessoa muito engraçada, com quem aprendi a falar palavrões bem ditos, completos, como se deve ser, está doente. A minha tia, nos seus 80 e poucos anos, passa os dias a cuidar dele. A minha prima disse que ela sempre pergunta de mim e do meu irmão, e pede para que o meu primo nos venha visitar.
Então, pedi à minha prima para que ela diga à minha tia que sinto muita mágoa por tudo o que ela fez. Disse que só pretendia vê-la no dia do seu enterro.
A minha prima explicou que não valia a pena dizer isso para uma pessoa na idade da minha tia, que ela já mudou muito, que os valores mudam ao longo da vida etc.
Saí da casa do meu primo triste, mexido, emocionalmente sugado. Fiquei doente.
Estou pensando se me disponho a ir à praia visitar os meus tios. Como havia dito que não iria mais ali, pois não poderia ser bem-vindo, a visita teria um caráter de perdão.
No dia seguinte, comentei com a minha chefe que não estava bem. Sabiamente, embora sem saber exatamente do que eu estava falando, ela me disse que o que nos fere também é o que nos cura.
Parece que sim.

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